domingo, 29 de maio de 2011

Desassossegados!


À raça dos desassossegados pertencemos todos, negros e brancos, ricos e pobres, jovens e velhos, desde que tenhamos como característica desta raça comum, a inquietação que nos torna insuportavelmente exigentes com a gente mesmo e a ambição de vencer não os jogos, mas o tempo, este adversário implacável. Desassossegados do mundo correm atrás da felicidade possível, e uma vez alcançado seu quinhão, não sossegam: saem atrás da felicidade improvável, aquela que se promete constante, aquela que ninguém nunca viu, e por isso sua raridade. Desassossegados amam com atropelo, cultivam fantasias irreais de amores sublimes, fartos e eternos, são sabidamente apressados, cheios de ânsias e desejos, amam muito mais do que necessitam e recebem menos amor do que planejavam. Desassossegados pensam acordados e dormindo, pensam falando e escutando, pensam ao concordar e, quando discordam, pensam que pensam melhor, e pensam com clareza uns dias e com a mente turva em outros, e pensam tanto que pensam que descansam. Desassossegados não podem mais ver o telejornal que choram, não podem sair mais às ruas que temem, não podem aceitar tanta gente crua habitando os topos das pirâmides e tanta gente cozida em filas, em madrugadas e no silêncio dos bueiros. Desassossegados vestem-se de qualquer jeito, arrancam a pele dos dedos com os dentes, homens e mulheres soterrados, cavando uma abertura, tentando abrir uma janela emperrada, inventando uns desafios diferentes para sentir sua vida empurrada, desassossegados voltados pra frente. Desassossegados desconfiam de si mesmos, se acusam e se defendem, contradizem-se, são fáceis e difíceis, acatam e desrespeitam as leis e seus próprios conceitos, tumultuados e irresistíveis seres que latejam. Desassossegados têm insônia e são gentis, lhes incomodam as verdades imutáveis, riem quando bebem, não enjoam, mas ficam tontos com tanta idéia solta, com tamanha esquizofrenia, não se acomodam em rede, leito, lamentam a falta que faz uma paz inconsciente. Desta raça somos todos, eu sou, só sossego quando me aceito.
Fernando Pessoa.

sábado, 28 de maio de 2011

So far away.


Eu moldava um sorriso diferente, algemava minhas idéias malucas, conciliava tristeza, alegria e vivia um pouco do meu jeito, às vezes copiava uma frase feita, um pensamento que acompanhasse os rabiscos da minha desilusão comigo mesma. Deixando de lado todas as coisas que aprendi, decidi correr contra todos os meus desejos e te seguir fielmente, mas hoje não te sinto tão perto, não me sinto tão perto.

 Eu nunca disse que meu coração era uma maria-mole fora da geladeira, nunca pintei meus defeitos e qualidades, nem menti sobre a ironia extravagante que borda meus dias. Mas tu sabes que por mais que eu tente ser uma garota forte, eu falho sempre. É que dentro dos meus olhos sempre sobram emoções e jorram rios de lágrimas. Ah meu Deus, eu nunca quis ser a mulher maravilha e nem em sonhos quis ser de aço. Por trás dessa minha capa de má, existe ainda uma mocinha desprotegida pedindo colo (o seu colo). Carrego tua imagem violada em meus prantos noturnos. E me parece doce esse teu cheiro, me tens nas mãos e me tocas fundo. Essas nossas conversas, essas risadas empoeiradas estão presas num Outono/Inverno da estação presente. Ainda escuto seus ecos de amor escondido pelos cantos da minha mente.

Espero pelo calor dos seus braços novamente, faz uma reviravolta em cada pedaço do que fui um dia. Sei que é aquele que me torna a mais feliz das criaturas.  À noite me cala com uma bofetada. Deito cercada de livros jogados pela cama, mas percebo que nem os melhores livros e as camas mais macias do mundo me trariam a paz e o descanso que eu preciso. Tua aparição é sempre doce. Eu me sinto quebrável, é de papel minha solidão e rasga. As palavras escorrem entre as minhas dúvidas plausíveis. Um pouco de luz na janela embaçada pelo frio e uma rasura enorme no peito. E hoje não sei se, por dor ou por amor eu te busco. Ainda posso sentir minhas asas, meio que cortadas aqui nas minhas costas. Quando o chão me parece falho,ganho o peso do ar e respiro suas fagulhas de serenidade e posso subir até onde meus pensamentos me permitem, mas sem a sua mente-asa jamais tocarei o céu.
 Preciso urgentemente de um conserto, ando de muletas e ainda persisto na idéia de continuar jogando futebol com elas. É insuportável essa poeira de dor, querendo cair sobre a minha cabeça.
Cada movimento hoje está perigoso demais. Então não me movo. Fico estática. Abraça-me, por favor, me abraça forte. Assim posso estar presa em teus braços e longe desse meu peito de pedra. Congela tua imagem em minhas pupilas. Tem tanta bagagem que carrego aqui comigo. Porém quando estamos juntos, levo apenas o seu fardo leve.
 Eu sei que seu olhar pode me alcançar por todos os lados e circunferências da minha vida. Peço que me abrace, aquele abraço feito só pra mim. Você existe é real. Por favor, não me perca de vista, como eu tenho te perdido.
A minha maior vontade é me esvaziar da minha história, e pertencer a sua. Dá uma vontade incessante de gritar e dizer tantas coisas, mas ás vezes é melhor ter fé na força do silencio. Dá um medo de te perder, de me perder, uma estranha loucura carregada de uma saudade jogada aos pés da ausência. Uma saudade apertada, invisível e amarga. Respiro um pouco depois desse dia tão triste, olho para o céu, tento sorrir. Busco um alento e te encontro ali, nas brechas do meu desespero segurando as minhas mãos, me fazendo andar...
Eu cansei de ser ‘’so far away ‘’ tanto de você como das pessoas que eu mais gosto,mas antes de querer alguém querido perto de mim  eu quero você que estende o seu estandarte do amor sobre mim. Eu te quero perto bem pertinho, bem juntinho. Eu nunca soube o quanto a sua ausência doía (até que ela se alojasse no meu coração). Nunca estive tão longe, tão longe.
 Dance comigo no seu ritmo perfeito. Ainda não encontro palavras pra dizer, gritar, exclamar, mas sei que é amor e não quero mais viver longe da plenitude dele, as lágrimas nos meus olhos hoje são inevitáveis e caem sem cessar.
 É inverno, mas quem sofre não é a minha pele e sim meu coração longe do teu, por isso eu preciso que você venha depressa, porque aqui fica apenas a metade do meu coração gélido precisando do calor do seu para me aquecer completamente/novamente.
Por fim esse é o meu sentir nostálgico,desajustado gritando, pedindo mais de ti e menos de mim, pedindo pra você voltar (pra eu voltar). E meu último desejo é que fique pra sempre, morando no conforto dentro do meu peito, junto do meio termo daquilo que eu chamo de amor.
Sexta - feira,oito de outubro/Outono de 2010. (Michelle Souza)





quarta-feira, 18 de maio de 2011

"(...) incompetente para a vida. Faltava-lhe o jeito de se ajeitar. Só vagamente tomava conhecimento da espécie de ausência que tinha de si mesma. Se fosse criatura que se exprime diria: 'o mundo é fora de mim, eu sou fora do mundo.'"



(A Hora da Estrela - Clarice Lispector)
                                                "Eu sofro de mimfobia,
tenho medo de mim mesmo.
Mas me enfrento todo dia."



Millôr Fernandes

O belo precisa voltar...



                                                            ''Voz que clama no deserto...
O belo precisa voltar
Por tempos aparecido
Hoje esquecido, abandonado...
Voz que clama no deserto...
A um milênio de distância
O deserto está vazio
Fugiram no êxito téc.
Voz que clama no deserto...

Téc. téc. Tic-tac.
Tu és coisa, é engrenagem
Saber, nem sempre é poder
 
Voz que clama no deserto...
O belo precisa voltar
Mesmo depois de rebaixado
Quero vos apreciar

Voz que clama no deserto...
A verdade revelada
Mas o que é a verdade?
Tua expressão também o é
Estou ficando rouco
Dizem que estou louco
Mas não me canso de gritar
O belo precisa voltar''








Inspiração respira ação

 Faz muito tempo que eu não escrevo nada deve ter sido porque a preguiça ficou ligada ou talvez a minha inspiração tenha ido embora.
Muitos dizem que é impossível a inspiração de um verdadeiro poeta sumir. Eu discordo, a inspiração pode sumir por dias, semanas, meses, anos á fio... Porém o poeta a trás de volta rapidamente se voltar a buscar nas miudezas dos detalhes em que vive
Quando a inspiração vem à tona, ela vem de uma forma mais linda, madura e nutritiva. É um tipo de dádiva que volta a vasculhar o âmago do nosso ser, nos faz ir ao porão da intimidade de mãos dadas sem medo do que se pode encontrar lá. Ela incendeia o cerne do espírito e faz a nossa alma fervilhar e desperta os devaneios mais loucos.
A inspiração de um poeta ajuda conhecer os outros e a si mesmo. Mesmo que não dominemos os assuntos mais polêmicos e acadêmicos do mundo, porém se tivermos inspiração temos o mundo aos nossos pés e iremos além das pessoas consideradas mais ‘’cultas’’.
Esses engenhos precisam morrer e reviver sempre em nossas memórias. Ter sempre inspiração nas palavras úmidas, inspiração nas palavras secas, inspiração na natureza, inspiração nos casais apaixonadas, inspiração na vivência, inspiração no amor, inspiração nos jeitos, trejeitos, conceitos e preconceitos daqueles que nos fazem bem e mal.
                                Inspiração hoje respira ação, coesão que dá razão a qualquer existência da palavra.
(Inverno de 2011 a minha inspiração voltou a ramificar e com ela fui/vou viver as estações;)