sábado, 17 de março de 2012

Quando amanhece

A pesada lista dos afazeres alarma antes do alarme e me desperta. Ás vezes durmo e acordo preocupada com os afazeres diários não desfruto da paz. Ás coisas abaláveis se acionam dentro do meu ser e tentam me tirar daquilo que eu posso receber em dias nublados
em dias ensolarados , percebo que a essência dos dias é singular.
Noites de tormenta todos temos. A tempestade de fora é fácil de ser controlada, cobrimos nossa cabeça com um cobertor e o transfiguramos em uma capa invisível, achamos que os monstros que se escondem debaixo da cama logo irão embora se não notarem a nossa presença. Fácil é se esconder em sua fantasias infantis, difícil é crescer por dentro, vencer as feras, eliminar ás magoas, as cicatrizes mentais e tantas outras coisas profundas do interior.
Amanheceu e a tempestade se foi, sobraram resquícios de folha seca sob o chão. Observo os fleches de luz do sol que invadem a janela do meu quarto, os raios contemplam a minha preguiça morna, minha cara amassada ,meus cabelos desalinhados , sinto que Deus está por perto ,sinto seu beijo suave em minhas rugas de aflição.
Vejo o sol nascendo no horizonte, o sol nasce jovem outra vez. O céu se enche de nuvens cinza que logo com o brilho do sol refletido se tornam avermelhadas, um azul cor de sossego com um branco da cor de leite condensado , os pássaros com suas canções suaves , falam ao pé do meu ouvido e me tiram para dançar lentamente ,aos passos de valsa.Sinto a serenidade e suavidade das mãos de Deus sobre a minha cabeça,sobre o meu ser. Minha vontade é me dobrar por inteira diante da sua plenitude e é isso que faço me sinto rendida e em paz, em paz com o céu, em paz comigo, em par com Deus.
Deus me olha nos olhos e me dita poemas. Fico tão embasbacada com tanta beleza e poesia que palavras me faltam nesse momento de luz. Digo a ele que não tenho muito a lhe dar, exceto a minha vida. Vêm-me na mente palavras do rei sábio Salomão: ’’Amo aquele que me ama e quem cedo me procura acha’’.Eu entrego a minha força entronizada com a força dos céus, eu o procuro e eu o vejo de perto, bem de perto. Passamos a noite no Getsêmani,onde ele entregou o cálice de coisas fartas e valorosas a mim . Desenterrei o meu tesouro. Floresci entre os espinhos do meu interior.Brincamos na grama verde e na rede do tempo ,nos envolvemos na simplicidade do espírito , gargalhadas e suspiros de satisfação por estar ao lado dele por um breve tempo. Sinto suas mãos doces guardando seus verbos eternos no meu coração e assim desentupindo as artérias do meu coração e deixando o sangue do amor pulsar livremente. Levanta o meu rosto de bolacha e diz pra mim que as tempestades de dentro também se dissiparam. Eu confio.  
Por vezes sinto o desejo de lhe pedir o impossível, mas aí me falta coragem. Aí peço que me dê só o necessário. Ele me surpreende com medidas que não mereço. Fico muda. Ele me socorre com seu sorriso. E de súbito, as palavras voltam a fazer parte de mim. 
Vi o nascer do sol com olhos e senti com o coração do meu Deus.A beleza que recebi hoje está nesse fantástico nascer do sol , que fazem meus olhos brilhar , e que dão carinho e pureza na alma , uma espécie de conforto particular ,amanhã o nascer do sol estará lá de novo de volta para me aquecer o corpo e iluminar o meu espírito. 



(Sussurro baixinho e digo , Deus obrigado por ter permitido tamanha beleza e amor dentro de mim , caminhamos de mãos dadas a noite toda , entrei os teu jardins ,no seu altar, na beleza da tua santidade, em um pedaçinho da sua glória,pude me deitar e me deleitar no amado da minha alma, sinto inteiramente viva e fervilhante por tamanho conforto e amor dentro do meu coração.Eu te agradeço por permitir que eu me sentisse tão intensa e tão bem ao teu lado. Ao pé do ouvido digo com a voz de veludo : Eu te amo !Se finda a adoração e os anjos dizem amém.)
[Michelle Souza 15/03/2012]

segunda-feira, 2 de janeiro de 2012

Certo dia você me chamou de violoncelo, de inicio não aceitei muito talvez pela sua forma gordinha (bem parecida com a minha), ou pelo modo arcaico ou erudito não sei.

Porém naquele entardecer não era um violoncelo, mas uma alma-corpo, que você estava tocando. Naquela tarde a orquestra de sabedoria foi perfeita. Por muitos instantes algumas notas regressaram para a essência do seu eco, algumas atitudes dispensavam palavras. Você mais do que ninguém sabe da minha paixão por palavras, pela contemplação do simples.
Fomos/somos uníssonos, sinfonia desafinada, mas que toca com maestria. Naquela tarde dispensei as palavras e continuei te ouvindo pelos seus olhares infinitos. Nossas tardes crepusculares são como o sol indo se deitar na campina.
A única maneira de me alcançar foi derrubando os meus umbrais com a sua liberdade, com a palavra dita na hora certa.
Fui afastada de mim e levada ao porão da intimidade de mãos dadas com você. E de lá até hoje nunca saímos, é no nosso porão que você cataloga os meus melhores sorrisos, as minhas dores e danos. É no nosso porão (que não tem nada de escuro e nem empoeirado), que a cada dia trazemos mais lembranças, mais gestos, mais sabedoria, menos morbidez, menos insensatez.
O porão que todos conhecem não é um lugar aonde o sol chega ainda mais se for radiante como o brilho dos seus olhos, mas o nosso porão é um lugar onde meu coração fica em repouso e ao mesmo tempo o meu coração bate como se mil cavalos estivessem apostando uma corrida. Aqui a beleza das coisas simples nos tira daquilo que nos torna mórbidos. As coisas por aqui sempre são muito mais do que aparências e afinidades, eu resumo nossa relação-porão em pluralidade bem peculiar.
Comigo você tem mostrado como é ser um grande homem aquele ser humano transparente, que não se refugia atrás das cortinas de fumaça, que mostra as suas maiores fraquezas.Que demonstra o que sente sem grandes pompas.
Lembrei-me de um fragmento de uma das suas cartas dirigidas a mim: ’’ Onde os meus  quadris se comparavam com as belas arvores  que nos recebem dançando e as minhas mãos se comparam ao mais suave vento que vem  trazer a mais leve brisa quando você se sente só’’
Com as suas delicadezas, tenho aprendido abraçar a sabedoria e fazê-la residir no mais intimo do meu coração
Aprendemo-nos,nos ensinamos , somos um pouco clichês, trasbordamos ás vezes por banalidades. Sujamos nossas vestes de poesia e o prazer de viver. Construímos verbos e mais verbos intrasitivos ao redor das nossas (in)certezas.
O que você sente em silêncio eu vou escrevendo. Sobre mim, sobre nós. 
Das coisas que você me diz eu vou escrevendo na folha do meu coração, das coisas que vamos vivendo tudo vai sendo memorizado. Eu escrevo mais o autor dessas entrelinhas é você.
Nesse inverno frio (pro coração) vamos beijar a noite e conversar com a lua e as estrelas que refletem o nosso olhar porque sem elas não somos nada, não por completo.